O Beijo que Virou Série: o que B.A. nos ensina sobre adaptações brasileiras 

Por Matheus Almeida Avila*

“Num Brasil distópico, jovens com superpoderes buscam aproveitar ao máximo sua adolescência antes de serem acometidos por um destino apático e cinza”. Para todos os que avistarem B.A: O Futuro Está Morto (2023) pelo catálogo da HBO Max, esta é a descrição que encontrarão. 

No entanto, a sinopse diz pouco sobre a série, ela não oferece um entendimento claro de sua trama, e tampouco convida o público que nunca teve contato com a obra original, a conhecê-la. B.A. se afasta dos moldes tradicionais do gênero, especialmente quando comparada a dramas adolescentes, como Euphoria (2019) e Skins (2007). 

Entre os poucos elementos na plataforma capazes de despertar o interesse de novos espectadores, destaca-se a imagem de capa, repleta de cores vibrantes e estilizadas. Este é um dos pontos fortes da obra, cuja identidade visual assume o protagonismo ao longo da narrativa. 

Capa de B.A: O Futuro Está Morto encontrada na HBO Max. Fonte: HBO Max

Em B.A: O Futuro Está Morto somos transportados a uma realidade na qual a Floresta Amazônica foi privatizada, transformada em um parque industrial. Ao completarem 18 anos, todos os adultos são afetados pela doença do “monocromatismo”, se tornando apáticos e sem cores, literalmente. Esse fenômeno cria um contraste visual e simbólico com os adolescentes da série, retratados sempre coloridos e cheios de atitude.

Os aspectos visuais em B.A. são o grande ponto positivo da série. Fonte: Google Imagens

Ser definido como um “Drama Adolescente” não faz jus ao que é apresentado na série, que explora temas complexos como política, repressão e resistência a partir da ótica adolescente. A tentativa de mesclar crítica social e estética pop resulta em uma obra visualmente marcante, ainda que, por vezes, prejudicada por escolhas de roteiro, e atuações abaixo da média. 

O que não é possível saber, apenas analisando a sinopse apresentada na plataforma, é que, na verdade, B.A corresponde a uma adaptação da HQ brasileira “O Beijo Adolescente”, de Rafael Coutinho. Em um mercado audiovisual no qual, cada vez mais, novas produções correspondem a adaptações (seja livros, HQs ou jogos), B.A é uma das poucas obras nacionais que surgem adaptando um quadrinho brasileiro. 

Neste ensaio, eu busco analisar B.A não por sua eficácia como produto audiovisual (apesar de ser impossível ignorar tais aspectos), mas sim de como ela funciona como adaptação. Independente de gostos e preferências pessoais, seria B.A uma chama, ou melhor dizendo, um indicativo de que temos força o suficiente para adaptar nossas próprias obras ao audiovisual, de modo que elas se tornem fenômenos globais? 

Fidelidade e reinvenção 

Quando pensamos em adaptar uma história de uma mídia para outra, o primeiro instinto costuma ser medir o quanto a nova obra é “fiel” à original. Principalmente na visão dos fãs mais conservadores, os quais não admitem que uma única vírgula seja alterada do material base. Mas, como apontam os estudiosos de adaptação, essa obsessão por fidelidade muitas vezes só atrapalha. 

“Você pode ser completamente fiel ao material
original, e ainda assim fazer um filme ruim. Ou
você pode mudar radicalmente o material original,
e fazer um ótimo filme. O que importa é a
qualidade da história no novo meio” (Robert McKee. Story, 1997).

Em outras palavras, fidelidade extrema é uma armadilha, adaptações de sucesso são aquelas que compreendem o que faz a alma da obra original, e sejam capazes de traduzi-la para as demandas do novo meio. No entanto, vale ressaltar que McKee não defende que tudo deva ser alterado sem critério, mas sim que a responsabilidade de um roteirista é com a linguagem audiovisual, e não com a reverência cega ao material original. 

Apesar das palavras de McKee serem direcionadas a obras cinematográficas, elas se aplicam, também, ao contexto dos streamings. Cada vez mais temos visto séries de streamings que são adaptações feitas à sua própria maneira, algumas boas, outras nem tanto. No caso de B.A., por exemplo, notamos que a decisão de enfatizar o contraste cromático entre jovens e adultos ganha sentido quando analisamos o que é feito no audiovisual. As cores vibrantes apresentadas funcionam como um chamariz imediato, algo que a HQ, no papel, não precisa explorar com tanta intensidade. 

Fazendo coro a McKee, Syd Field diz que “Uma adaptação é uma releitura que precisa funcionar cinematicamente” (Screenplay, 1979). De nada adianta trazermos falas originais, se elas resultarem em cenas arrastadas ou confusas, o público de streaming espera ritmo, visual atraente e personagens que engajem logo nos 10 primeiros minutos de cena. É exatamente aí que entra o lugar da reinvenção. Adaptar pressupõem editar, condensar e, às vezes, inventar, para que a trama seja não apenas fluida, mas consiga engajar. Em B.A., o arco principal dos protagonistas remete fielmente às aventuras da HQ, mas ganha novos episódios, subtramas, e até mesmo um vilão exclusivo da série. 

As adaptações internacionais 

Nos últimos anos, cada vez mais temos observado séries que não nasceram originalmente para a televisão. A TV, e agora o streaming, se tornou um espaço onde histórias de outras mídias ganham uma nova vida, uma nova roupagem. Dentre tantas adaptações, duas se destacam: Game of Thrones (2011), adaptado da série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, e The Last of Us (2023), adaptação do jogo da Naughty Dog para PlayStation.

Game of Thrones, mesmo com suas polêmicas quanto ao seu final, deixou claro o apetite do público por universos complexos e adaptados com cuidado. Já The Last of Us apresenta mais do que apenas zumbis e cenários pós-apocalípticos, a série consegue manter, e até mesmo ampliar, o drama humano presente no jogo. 

O que une estas duas obras tão distintas? O cuidado com a adaptação! 

Nenhuma delas tentou simplesmente “copiar” a história original. Ao invés disso, buscaram traduzi-la para a linguagem no qual estariam inseridas, a audiovisual. O que havia de mais potente nas obras originais foi respeitado, mas sem medo de mudar o que fosse necessário. Com exceção, é claro, do final de Game of Thrones, o qual não funciona por inúmeras outras razões. 

Dentre esse panorama internacional de adaptações, há um exemplo que dialoga diretamente com B.A., a série britânica Heartstopper (2022). Assim como B.A., Heartstopper nasceu como uma adaptação de quadrinhos feita para o público jovem, sem se prender aos clichês do “Drama Adolescente”. Ambas as obras abordam assuntos como amadurecimento, opressão e identidade, sempre com uma linguagem acessível, estética vibrante e personagens fora do eixo tradicional. A diferença principal está na execução. Enquanto Heartstopper consegue equilibrar roteiro, atuação e direção, B.A. patina em alguns desses aspectos, como veremos mais adiante. 

O ponto central aqui é um só: as adaptações funcionam quando entendem que o objetivo não é copiar, e sim reinterpretar! 

As adaptações nacionais 

Quando falamos em adaptações no Brasil, nosso imaginário coletivo logo nos transporta para as novelas. Afinal de contas, temos inúmeros exemplos de romances clássicos e best-sellers contemporâneos sendo adaptados para o horário nobre. A telenovela Orgulho e Paixão (2018) é um grande exemplo, sendo uma adaptação não apenas do romance “Orgulho e Preconceito”, mas também de várias outras obras da escritora Jane Austen.

Logo da novela Orgulho e Paixão (2018). Fonte: TV Globo.

Contudo, ao analisarmos o mercado de séries, especialmente com o crescimento das plataformas, é possível observarmos um movimento similar, ainda que em menor escala. Obras literárias, e quadrinhos, vêm ganhando vida no formato seriado. 

Um dos exemplos mais famosos da atualidade pode ser encontrado na série Bom Dia, Verônica (2020), baseada no livro homônimo de Raphael Montes e Ilana Casoy. O que chama atenção é o fato de que a série não se limita a somente “traduzir” o livro, muito pelo contrário. Existe um foco em aplicar o universo apresentado, aprofundando personagens e transformando a leitura em uma experiência visual intensa. 

Outro grande exemplo vem diretamente de um dos maiores patrimônios de nossa cultura: a Turma da Mônica. A franquia, criada por Maurício de Sousa, ultrapassa gerações, e recentemente tem sido transposta para o audiovisual. Filmes como Turma da Mônica: Laços (2019), Turma da Mônica: Lições (2021), Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa (2025), além da série Turma da Mônica – A Série (2022) apenas reforçam ser possível manter o humor e a essência da obra original, mesmo que em um novo formato. Uma obra capaz de agradar tanto às crianças de hoje, quanto aos adultos que cresceram lendo os gibis, não é pouca coisa. 

Mesmo com esses exemplos, o fato é que o Brasil ainda engatinha quando o assunto é adaptação, principalmente focando em nossas HQs. Atualmente, possuímos uma produção riquíssima de quadrinhos autorais, com estilos visuais e narrativos que se adaptariam perfeitamente às telas, mas poucos chegam realmente a ser adaptados. Ou até mesmo conhecidos. É nesse cenário que entra B.A. Afinal, o que acontece quando uma HQ adolescente brasileira, underground, e com estética própria, vira série em uma das maiores plataformas do mundo? 

B.A: O Futuro (das adaptações) Está Morto? 

Adaptar uma HQ para o audiovisual é sempre um desafio. Obras como Scott Pilgrim conseguem adaptar, de maneira única, o universo fantástico criado por suas HQs, dando a impressão de ser um trabalho fácil. A realidade, no entanto, é o completo oposto. 

Em B.A., a série consegue captar com precisão a atmosfera única da obra original, O Beijo Adolescente, de Raphael Coutinho. O próprio autor, em entrevista, reconheceu isso, elogiando a equipe por dar uma nova dimensão ao projeto. 

“Foi uma lição de vida, eu nunca tinha participado de
algo assim, visto uma apropriação de algo que eu criei
virar algo muito maior. Eles deram uma nova dimensão
para o projeto todo. Esse não é um grupo qualquer, é
uma equipe muito ambiciosa. Que dentro das
possibilidades que tinha, jogou o mais alto que podia,
sonhou o mais forte e mais intenso” (Raphael Coutinho)

O aspecto visual da série é um verdadeiro espetáculo à parte. As cores vibrantes e a estética lúdica transmitem, com maestria, a ideia do quadrinho. A transição do preto e branco da HQ, para a explosão de cores vistas na série, simboliza bem a diferença entre a apatia dos adultos e a “explosão” dos adolescentes. A direção de arte e a fotografia merecem destaque por essa tradução visual tão eficaz. 

O contraste de cores entre adolescentes e adultos é bem visível na HQ Fonte: O Beijo Adolescente/ Raphael Coutinho.

No entanto, nem tudo são cores flores. Apesar da estética marcante, o roteiro apresenta fragilidades. Algumas escolhas narrativas e de direção deixam a desejar. 

Um grande exemplo está na figura do “monstro”, a entidade simbólica que assombra os personagens, e foi uma criação original da adaptação para a TV. Nas HQs os conflitos são mais subjetivos e poéticos, enquanto a introdução do monstro na série pode ser vista como uma tentativa de tornar o dilema emocional do protagonista mais concreto. Apesar de ser uma tentativa válida, a execução é mal feita, desde a apresentação, até a resolução do arco de enfrentamento do monstro. 

O “monstro”, criado especificamente para a série. Fonte: HBO Max.

Outro ponto negativo pode ser encontrado nas atuações, as quais variam em qualidade. É importante considerar que parte do elenco é composta por atores iniciantes, o que pode explicar algumas das atuações menos convincentes. Ainda assim, essas questões impactam a fluidez da narrativa e a imersão do espectador.

Em resumo, B.A: O Futuro Está Morto é uma adaptação que acerta ao capturar a essência visual e temática da HQ, mas tropeça em aspectos fundamentais da narrativa audiovisual. É uma obra que mostra não apenas o potencial das adaptações nacionais, mas também evidencia desafios que ainda precisam ser superados. 

E o Futuro? 

Embora a HBO Max não tenha divulgado números oficiais de audiência, B.A. conquistou uma base de fãs engajada nas redes sociais, recebendo elogios quanto à estética vibrante e a abordagem de temas relevantes para a juventude brasileira. Apesar de a HQ possuir 3 volumes, os quais podem ser adaptados para 3 temporadas, até o momento, a plataforma não se pronunciou sobre uma possível continuação da série, deixando os fãs na expectativa. 

B.A se propõe a ser uma adaptação adolescente, de uma HQ igualmente voltada para este público. Nesse sentido, a série acerta ao transpor para o audiovisual a atmosfera única de O Beijo Adolescente, com sua estética marcante e crítica social embutida, oferecendo uma experiência sensorial que conversa diretamente com as inquietações da juventude. 

Contudo, ao analisarmos a série como produto audiovisual independente, é impossível ignorar as limitações do roteiro e das atuações, as quais comprometem a profundidade da narrativa. Essas falhas evidenciam os desafios enfrentados na adaptação de obras literárias para o audiovisual, especialmente quando se busca inovar e romper com os padrões estabelecidos. 

Apesar de suas imperfeições, B.A. representa um passo importante na valorização da cultura pop nacional. Ele abre caminho para que outras HQs brasileiras consigam sair das páginas, e possam ganhar adaptações nas telas. Independente de gostos pessoais, a adaptação de B.A. torna-se um grande aliado às adaptações que estão por vir, mostrando que, o futuro, definitivamente, não está morto.

*Jornalista pela UFMG e integrante do COMCULT/UFMG.


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