Mercado de Criação e produção audiovisual seriada
Em 2023, em comunicado divulgado pelos próprios acionistas da empresa, a Netflix destacou que, naquele momento, estaria produzindo ou coproduzindo em mais de 50 países e línguas diferentes com o objetivo de encantar o público local (Mungioli, Lemos e Penner, 2024). Ou seja, uma das principais estratégias de conquista de audiência nestes países fora dos Estados Unidos é a produção de conteúdos originais que começaram a competir nesse mercado audiovisual. De acordo com Amanda Lotz (2021), mais da metade das produções originais da Netflix não são feitas no idioma inglês e o serviço atualmente tem mais audiência fora do que dentro dos EUA, o que demonstra o nível de transnacionalização de conteúdos atualmente praticado.
Esses números nos motivaram a buscar caminhos que explicassem o desempenho dos mercados latino-americanos frente a uma indústria audiovisual que se tornou global e altamente competitiva. Com pouco ou nenhuma fronteira nacional na distribuição de conteúdo, as empresas que operam em vários países enfrentam diversos desafios nos mercados locais em busca de aproximação com a audiência, negociação com produtos e criação de conteúdo que satisfaça as audiências globais e locais ao mesmo tempo. Com isto, a produção em diversos idiomas, em distintos países e continentes tem levado as plataformas a adotarem importantes estratégias que buscam esta diluição de fronteiras, a exploração de histórias, universos, personagens e situações locais a partir de parâmetros que observam o que temos denominado como a premissa think global, produce local.
Outro aspecto, ligado aos temas de mercado, diz respeito ao cenário instável para o desempenho das atividades de roteiristas e demais criativos do audiovisual, sobretudo no que diz respeito aos vínculos com as plataformas de streaming. Segundo pesquisa realizada pelo COMCULT, entre as 82 séries originais para streaming produzidas no Brasil até 2023, e que seguem disponíveis nos respectivos catálogos das plataformas, foram mobilizados 353 roteiristas, o que, à primeira vista, pode parecer um dado promissor. Contudo, esse crescimento esconde um problema crônico: a precarização das relações de trabalho. Temas como descentralização e diversidade também despontam como cruciais, pois a centralização da produção em produtoras independentes do eixo Rio-São Paulo acentua a desigualdade no setor. A ausência de perfis diversos envolvidos nos processos criativos acompanha as dificuldades encontradas nas demais áreas que movimentam a indústria nos países. Uma discussão que tem se intensificado entre profissionais e entidades do setor é a necessidade de uma regulação que viabilize, entre outras coisas, melhores condições trabalhistas e diálogo com as plataformas.