Uma chamada, um novo projeto e uma nova fase pra encerrar 2025!

Por Mariana de Almeida Ferreira*

Era julho de 2024 quando o CNPq publicou um edital para um programa inédito de Atração e Fixação de Talentos brasileiros, o Conhecimento Brasil. Quando saiu a notícia, eu estava em Bogotá (Colômbia) realizando minha residência de pós-doutorado por meio de bolsa concedida ao Projeto Selo América Latina, do COMCULT. Imersa em outras tantas demandas e ainda em processo de adaptação em outro país (há alguns meses longe de casa, da família, dos amigos), não tinha muitas forças pra dar conta de escrever um novo projeto de pesquisa inteiro em tão pouco tempo. A chamada encerrava em setembro e, pra quem nunca escreveu um projeto para agências de fomento à pesquisa, creia-me: é uma trabalheira danada! Perguntei pra Simone (líder do COMCULT e grande parceira de trabalho há quase 7 anos) “a gente vai tentar?”, e ela só me respondeu “sim”. Daí em diante foi uma verdadeira maratona.

Conversamos num primeiro momento pra fazer um brainstorming sobre o que seria o novo projeto. Várias ideias foram colocadas à mesa, mas havia uma específica que já estava na gaveta de próximos passos do grupo, que já havia sido pensada como possibilidade quando o Projeto Selo América Latina estava em sua segunda fase (tem um ensaio da Bem Te Vi explicando melhor sobre isso aqui): “acho que deveríamos seguir com a proposta de desenvolver uma teoria do roteiro de séries televisivas, essa é a oportunidade que temos”, disse Simone muito decidida. Ela tinha razão, era a nossa chance. Há meses (talvez anos!) sentíamos a necessidade de pensar e investigar sobre isso, era um entrave no nosso próprio processo de pesquisa que por vezes precisava de uma teoria e não tinha. O que temos, bastante, são manuais e mais manuais sobre como escrever roteiros audiovisuais. Mas um conjunto estruturado de ideias, conceitos e proposições sobre o roteiro, especificamente quando se trata de obras audiovisuais latino-americanas, ainda não temos. 

Topei na hora, mas fiquei um pouco assustada com a ideia. Dentre os vários motivos, o principal deles era: seria necessário escrever praticamente tudo do zero e eu só teria 20 dias pra fazer isso. As inscrições da chamada encerravam em setembro e em agosto minha mãe e minha irmã iriam me visitar por 15 dias na Colômbia, a primeira viagem internacional delas, nosso primeiro reencontro em 8 meses longe. Ou seja, impossível trabalhar, rs. Me sobrou o resto dos dias para escrever uma proposta inteira. Mas eu queria muito, era uma ótima oportunidade. O período de pós-doc encerraria em 2025 e eu queria voltar a morar no Brasil. Não só isso. A nova modalidade de bolsa concedida pelo CNPq era excelente, com inclusão de benefícios como auxílio saúde e previdência. Além disso, eu seria coordenadora do projeto, poderia ter verba de capital e custeio para bancar a pesquisa e ainda contar com bolsistas estudantes de graduação e Ensino Médio. Para uma recém doutora como eu, essa era uma oportunidade de ouro e precisava ser aproveitada. 

Me joguei de cabeça na proposta, escrevi sem parar por vários dias seguidos, contei com ajudas valiosíssimas como a de Gabriel, que deu a sugestão do título, e a da professora (e amiga) Verônica Soares, que gentil e cuidadosamente leu o projeto inteiro antes de ser submetido e deu contribuições fundamentais. Assim nasceu o novo projeto de pesquisa internacional Nosso Drama: Contribuições para uma teoria do roteiro de drama seriado televisivo a partir da América Latina, tendo o COMCULT como equipe principal e a UFMG como instituição executora. Era 28 de fevereiro de 2025, diante de um cenário de muita incerteza mas muita esperança na minha vida, quando saiu o resultado preliminar. Eu ainda estava em Bogotá, em casa, sozinha, talvez assistindo à Grey´s Anatomy, desejando curtir o Carnaval com os meus amigos no Brasil, quando chegou o email do CNPq. Ler as notas e pareceres recebidos foi como nadar em um rio de águas calmas, foi um abraço apertado, um aconchego. Entre os 566 aprovados para a linha 1 (voltada a doutores), o meu nome estava lá. Que sensação boa! Dos projetos contemplados para serem executados na UFMG, o meu era o único da área da Comunicação. Grande feito! Fruto de um longo e árduo trabalho coletivo, com parcerias essenciais construídas ao longo dos últimos anos. 

Com pesquisadores parceiros do México, da Colômbia, da UFF, UFPB e UFBA, o projeto Nosso Drama tem o objetivo de desenvolver elementos para uma teoria do roteiro que dê conta de refletir as características e especificidades narrativas dos dramas seriados contemporâneos latino-americanos produzidos desde 2015 por serviços de video on demand nos três principais mercados do continente: Brasil, Colômbia e México. Ao criar e ampliar bases teóricas e materiais, busca estabelecer um diálogo e proporcionar uma extensão dos interesses de pesquisa desenvolvidos no âmbito do Projeto Selo América Latina de Exportação da Ficção Televisiva. Na dimensão teórico-metodológica, com foco na narrativa do drama seriado, o projeto busca desenvolver análises a partir de duas unidades centrais à ficção seriada televisiva: i) convenções e hibridismos de gênero e; ii) construção de universos narrativos. No horizonte dos impactos sociais e científicos pretendidos, além de dar continuidade às parcerias e trocas com pesquisadores brasileiros e estrangeiros latino-americanos, dirigimos nossos esforços a partir de três linhas de atuação: i) desenvolvimento científico a fim de concretizar a escrita de uma teoria do roteiro voltada ao drama seriado contemporâneo latino-americano; ii) formação: de roteiristas para criação dramatúrgica em nível de graduação e extensão, por meio de cursos sobre a arte do roteiro, dinâmicas como a de “salas de roteiristas” e ferramentas como as de Inteligência Artificial; de audiências cidadãs e de pesquisadores em diferentes níveis da carreira discente e docente; iii) elaboração de material teórico-didático de amplo e democrático acesso por diferentes públicos interessados no fazer televisivo contemporâneo da América Latina. 

Uma proposta ousada, eu sei, mas possível e que já tem mostrado alguns resultados. 

Primeiro, nossa equipe aumentou. Além de bolsistas e orientandos de Graduação e Pós-Graduação, sob orientação da Simone e minha, o COMCULT conta agora pela primeira vez com duas bolsistas do Ensino Médio para compor a equipe, o que nos deixou ainda mais empolgados em desenvolver o trabalho. E a previsão é de que mais bolsistas de EM passem a integrar a equipe em 2026. 

Segundo, pudemos contratar serviço pra desenvolver uma identidade visual própria que dá conta de abranger os vários projetos relacionados no grupo. Inspirada no mapa e nas cores da América Latina, além de elementos referentes ao audiovisual, a disposição vertical das letras reforça a ideia de crescimento, movimento e  continuidade. Como disse Simone, parece que a imagem tá falando com a gente.

Logo oficial do Nosso Drama

Terceiro, estabelecemos novas parcerias na Colômbia, no México e no Brasil e um novo projeto de pesquisa tem previsão de início em 2026. Coordenado por Simone e Marcos Meigre (professor da Unifesspa e integrante do COMCULT), o projeto Nosso Drama I: Padrões de enredo, processos criativos do roteiro e desafios sociotécnicos na produção contemporânea de ficção seriada na América Latina constitui-se como uma frente de pesquisa que em seus eixos de atuação congrega os demais projetos vigentes no grupo e que aprofunda, entre outras coisas, questões referentes à Inteligência Artificial relacionada ao audiovisual. 

Quarto, nosso novo “menino dos olhos de ouro” foi lançado. O projeto de extensão Nosso Drama Lab: Laboratório de desenvolvimento de projetos de ficção seriada para TV está com inscrições abertas até final de janeiro e com atividades previstas para iniciar em fevereiro de 2026. Concebido e construído com muito carinho e dedicação desde outubro de 2024, esse laboratório pretende ser um espaço de formação, criatividade e conexão entre a universidade e o mercado audiovisual, voltado a um público diverso e desenvolvido de modo a atender distintas realidades dos participantes. Todas as informações sobre esse projeto que já é nosso xodó você encontra aqui.  

Quinto, enquanto estava às voltas preparando a disciplina de laboratório de criação e escrita de roteiros de ficção seriada, que semestralmente oferecemos aos cursos de Comunicação da UFMG desde 2020 e que em 2026 retorna com conteúdo programático praticamente inteiro novo, recebi da Fapemig a notícia de aprovação da proposta que submetemos para a chamada 2025 voltada à Organização de Eventos. Com essa verba, a ideia é realizar no primeiro semestre de 2026 um evento oficial de lançamento do projeto Nosso Drama, com diferentes atividades das quais irão participar pesquisadores da área e profissionais do mercado audiovisual brasileiro. Fiquem atentos ao nosso site e perfil do Instagram para acompanhar as novidades sobre o evento. 

E se tudo der certo, por conta dos projetos atuais do COMCULT, está prevista uma missão acadêmica no México em 2026, além de outras no Brasil e na Colômbia pelos próximos anos. 

O ano de 2025 foi extremamente frutífero pro COMCULT. Estamos, de verdade, muito felizes com tudo o que temos conquistado, com os resultados que temos alcançado. Juntos, estamos realizando sonhos antigos nos âmbitos do ensino, da pesquisa e da extensão. O ano que vem promete ser de muito trabalho, já temos uma agenda bem cheia de demandas pro primeiro semestre de 2026, eu mesma nao sei como dar conta de tudo, mas nossa vida anual até aqui tem sido tal qual fim de novela: uma correria danada pra resolver tudo em pouco tempo e, no último capítulo, o final feliz. 

Com esse texto, encerramos o ano de 2025 na Bem-Te-Vi! Um Feliz Natal e Próspero 2026!

*Pesquisadora Conhecimento Brasil (CNPq), professora PPGCOM/DCS/UFMG, integrante do COMCULT


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