Qual o papel da violência na minissérie Dias Perfeitos? 

Por Gabriela Arcas*

Imagem retirada do site oplanetatv

“Meu coração, não sei por quê

Bate feliz quando te vê

E os meus olhos ficam sorrindo

E pelas ruas vão te seguindo

Mas mesmo assim… foges de mim…”

O trecho acima traz versos de “Carinhoso”, canção de Pixinguinha, que narra a história de um eu lírico apaixonado, que anseia por ser correspondido. Na voz de Zé Ibarra, a música fez parte da trilha sonora da minissérie Dias Perfeitos; entretanto, em vez de ser tema de uma história de amor, como na telenovela Carinhoso (Rede Globo, 1973-1974), ela ressoou em uma história macabra, marcada por obsessão e violência. 

Lançada em 14 de agosto de 2025 no Globoplay, Dias Perfeitos é mais uma adaptação das obras de Raphael Montes, autor que já conta com os sucessos Bom dia, Verônica (Netflix, 2020-2024) e Beleza Fatal (HBOMax, 2024) em seu currículo. Dirigida por Joana Jabace e roteirizada por Claudia Jouvin, o suspense narra, em oito episódios, a obsessão de Téo (Jaffar Bambirra) por Clarice (Julia Dalavia), após ser beijado por ela em uma festa. A jovem, que queria somente fazer ciúmes em Breno (Elzio Vieira), seu namorado, passa a ser seguida por Téo e acaba sequestrada por ele.

Segundo dados do Observatório do Cinema, poucos dias após sua estreia, a minissérie alcançou o top 10 do Globoplay e rapidamente assumiu a primeira posição. As atuações de Jaffar e Julia foram extremamente elogiadas, assim como a representação do universo narrativo da obra, que exalou tensão, pavor e sensação de sufocamento em absolutamente todos os episódios. Apesar disso, a produção vem causando certa polêmica no que diz respeito à exploração da violência contra a mulher, gerando um debate polarizado entre elogios e críticas. 

Isso porque a protagonista Clarice vive dias aterrorizantes em cativeiro, sendo drogada, agredida, torturada e abusada sexualmente por Téo. Também, o rapaz arma a morte de Patrícia (Débora Bloch), sua própria mãe, sem contar com outras violências vividas por personagens secundárias. A exibição de tais cenas levantaram a seguinte questão: apresentar narrativas em que mulheres são brutalmente violentadas seria apenas a retratação da realidade social ou poderia ser entendido como uma glorificação da misoginia? 

Raphael Montes, um dos autores brasileiros mais proeminentes da literatura policial e de suspense dos últimos anos, tornou-se destaque nesse questionamento, uma vez que boa parte de suas histórias apresentam personagens femininas que são vítimas de atrocidades cometidas por vilões perversos. A discussão foi inflamada após Montes postar, em 27 de agosto no X (antigo Twitter), um vídeo que gravou em abril deste ano, ironizando esse tipo de crítica: 

“ […] Eu quero mudar, eu quero agora me conectar com a natureza, me conectar com o outro. Eu não vou mais escrever histórias de suspense, de crime, agora só vou escrever histórias edificantes, que melhoram a autoestima, histórias que levam a gente pra frente, histórias que preenchem o nosso coração e nossa alma. Agora eu vou ser um autor de auto-ajuda, porque eu estou buscando a minha própria felicidade […].”

Vídeo postado no X na conta de Raphael Montes 

O vídeo, que contou com 5,4 milhões de visualizações e milhares de comentários, suscitou ainda mais controvérsias. De um lado, há internautas que criticaram o comportamento do autor, alegando que, em vez de tentar compreender de onde vem o desconforto de mulheres diante de suas narrativas violentas, ele apenas tratou a questão com deboche e desqualificação. Por outro lado, alguns usuários defenderam que os horrores escritos por Raphael Montes são apenas fictícios e não prejudicam ninguém na vida real: 

Internautas criticam o comportamento de Raphael Montes (tweets retirados do X
Internautas defendem as narrativas de Raphael Montes (tweets retirados do X

O papel da violência em obras de ficção 

A presença da violência na ficção brasileira não é algo que começou com as narrativas de ação ou com as produções do gênero true crime. Já nas décadas de 1960 e 1970, durante o período ditatorial do país, popularizou-se uma prosa mais agressiva (classificada como literatura brutalista por alguns autores), que recusava o conforto dos heróis românticos em detrimento aos personagens esmagados por um sistema opressor e cruel, sem direito a redenção nem a final feliz. Em tais obras, a violência é expressa de maneira deliberada e detalhada, podendo despertar perplexidade, pesar e descontentamento em seu interlocutor.  

Mas o acionamento de emoções negativas não é provocado por maldade. O autor Karl Erik Schøllhammer, nas palavras de Luciana Coronel, entende que narrar a violência ou expressá-la em palavras e imagens são maneiras de lidar com ela, de criar formas de proteção ou de digestão de suas consequências, dialogando com ela mesmo sem a pretensão de explicá-la ou esgotar sua compreensão. 

No período ditatorial brasileiro, por exemplo, marcado pelo autoritarismo político, a produção ficcional (como a de Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão e Carlos Heitor Cony) lançou mão da violência para denunciar de maneira proporcional as atrocidades cometidas pelo governo. Assim, essa violência não seria gratuita e nem teria a intenção de legitimar o que acontecia, mas carregaria uma crítica ao representar uma realidade inaceitável, abrindo espaço para o diálogo social. Ou seja, as obras objetivavam espelhar a dor e o desespero da vida real, apontando a urgência de quem convive com algo intolerável e se colocando como resistência em meio a um contexto de caos.  

Segundo matéria do g1, baseada em pesquisa do Datafolha, 37,5% das mulheres brasileiras sofreram algum tipo de agressão no ano passado. Além disso, 10,7% relataram ter sofrido abuso sexual e/ou foram forçadas a manter relação sexual contra a própria vontade (ou seja, uma em cada 10). Assim, diante do alto índice de violência contra mulher no Brasil, é possível considerar que o autor Raphael Montes buscou representar uma realidade social em Dias Perfeitos. Apesar disso, há que se levar em conta também que nem todo tipo de violência possui fins de denúncia e de crítica social, isto é, a depender da perspectiva abordada, pode ocorrer nada mais que uma espetacularização da desgraça alheia e até mesmo uma glorificação de quem gosta de promover sofrimento ao outro. 

Nesse ponto, pergunta-se: e qual seria o problema de representar a violência gratuitamente na ficção, uma vez que o gênero terror/horror existe justamente para despertar emoções como susto e medo, e, ainda, os escritores e roteiristas dispõem de liberdade para escolherem como irão retratar cada assunto? Para analisar a abordagem das personagens femininas em produções ficcionais violentas, o autor Carlos Gomes trouxe a expressão “monolinguismo misógino”, que sintetiza a normatização da violência contra mulheres realizada pelo discurso machista, por meio de códigos que relativizam o estupro e a humilhação, e impõem o terror da violência como situação corriqueira. 

A retratação da violência e, principalmente, do estupro, conforme esse monolinguismo misógino, estaria relacionada à manutenção de privilégios masculinos culturais, fazendo com que os códigos de submissão feminina sejam retomados “como uma estratégia de subjugação e humilhação do corpo da mulher, que é visto como um corpo-território pelos assediadores e abusadores”. Desse modo, obras que desejam se posicionar contra o imaginário do estupro deveriam trazer esperança, transformando a escrita em um corpo de luta e não em um corpo simplesmente violentado. Gomes coloca que é um “corpo-escrita, que, por sua vez, projeta-se como um corpo-resistência”. 

[ALERTA SPOILER]

A minissérie Dias Perfeitos tenta fazer esse movimento ao colocar Clarice se vingando de seu agressor no último episódio; ela droga Téo, fazendo-o ficar atormentado por suas próprias loucuras, e desmascara o rapaz, que é internado em um hospital psiquiátrico. A cena final da jovem exibe ela na praia, com suas amigas a carregando no colo – já que Téo a deixou paraplégica. 

Cenas finais do episódio 8 – Imagens retiradas da plataforma Globoplay

Esse final, proposto pela roteirista Cláudia Jouvin, destoa do livro de Raphael Montes, no qual a protagonista termina a narrativa grávida do psicopata e com amnésia. Outra diferença é que na obra televisiva são apresentados tanto o ponto de vista de Clarice quanto o de Téo; já o livro enfoca apenas a perspectiva do vilão. 

Contudo, mesmo tentando empoderar a protagonista na versão televisiva, Dias Perfeitos não economiza nas cenas de violência. O público assiste Téo agredir, aprisionar, drogar e torturar Clarice; vê ele estuprá-la (por duas vezes, uma em cada perspectiva); observa ele lesionar sua coluna vertebral para que ela se torne mais dependente dele; acompanha Téo tentando desligar os aparelhos médicos no qual a jovem está ligada, a fim de matá-la; e, como se não bastasse, o espectador ainda vê ele se aproveitar da amnésia de Clarice para continuar próximo a ela, fingindo ser seu noivo.  

Será que a vingança promovida nos 20 minutos finais da narrativa foram suficientes para transformar a protagonista em um exemplo de resistência diante da violência contra a mulher? Será que Téo ser retratado como alguém infame e desprezível basta para que a narrativa escape do monolinguismo misógino?  Por outro lado, como representar as atrocidades que ocorrem com as mulheres de maneira a colocá-las como um “corpo-resistência”? Será que não exibir tantas cenas nas quais a mulher é submetida, violentada e humilhada ajudaria nessa construção ou acabaria por abafar uma realidade social? Fica a reflexão!

*Mestre em Comunicação Social pelo PPGCOM/UFMG e integrante do COMCULT/UFMG. 


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