Veja como a série do Globoplay reconstrói, com nostalgia e ludicidade, o bairro do Limoeiro e os laços da turminha brasileira.
Você reconheceria a Mônica e sua turma se os visse 60 anos depois? O universo de Maurício de Sousa tem saído dos desenhos e da animação para estar em filmes e séries live actions. Em 2024, o Globoplay produziu “Turma da Mônica: Origens”, que narra dois momentos das vidas de Mônica (Giovanna Urbano/ Louise Cardoso), Cebolinha (Felipe Rosa/ Daniel Dantas), Cascão (Bernardo Faria/ Paulo Betti), Magali (Manu Colombo/ Malu Valle) e Milena (Sabrina Souza/ Du Moraes). Composta por 8 episódios, a série narra como os amigos se conheceram quando crianças e, ao mesmo tempo, mostra-os mais velhos, na casa dos 70 anos. E, justamente, esta representação como idosos é a grande novidade para o público, já que eles nunca foram colocados desta forma.
Elenco infantil de “Turma da Mônica: Origens” posa com Mauricio de Sousa — Foto: Fábio Braga
O ambiente em que a série se passa é característico e marcante para os fãs da turminha e traz a essência desse mundo. Todos os episódios ocorrem no bairro do Limoeiro, assim como as histórias em quadrinhos e os desenhos animados, com uma diferença: o local agora conta com um hotel de luxo, o Limoeiro Palace Hotel. As crianças se conhecem quando seus pais resolvem passar as férias hospedados por lá, vivendo grandes aventuras por meio da competição do “tio da recreação” (Érico Brás). Essa competição surge após a chegada de uma tempestade, que fez muitos hóspedes irem embora. Para contornar a situação, Denilson (Marcos Veras), chefe do local, pede ajuda do Tio da Recreação para impedir que mais pessoas deixem a estadia. Assim, é criado um campeonato em que as crianças são as participantes e cujo prêmio é a suíte presidencial.
Essa história é contada pelos personagens mais velhos, que tentam trazer as lembranças de Mônica de volta, relembrando a origem de sua amizade. Após um incidente, ela esqueceu quem são seus amigos e cada capítulo mostra os quatro tentando fazer a dona do Sansão reconhecê-los novamente.
Composição do universo narrativo
Na era transmídia, o público se depara com mundos que não são apenas imagináveis, mas que foram realmente construídos a partir da expansão de uma narrativa principal, adaptada para diferentes mídias. No caso da série, foi necessário desenvolver novas tramas baseadas nos quadrinhos, respeitando as regras e a lógica já existentes no universo da Turma da Mônica. Inclusive, a série do Globoplay faz referências para fora da história central do roteiro e trouxe à tona personagens ausentes, relembrando ao público as raízes desse mundo: as histórias em quadrinhos. No episódio quatro, os pais do Cebolinha se deparam com o cartaz do filme “As Aventuras de Piteco”, personagem que não está na obra, mas que também faz parte do “mundo da Mônica”. Dessa forma, como uma nova mídia, só reforça o vínculo do público com esse universo independente do formato.

Todo universo ficcional tem suas próprias regras e depende da imaginação para funcionar. Ele não precisa estar ligado a um lugar ou cultura específicos, mas usa referências do mundo real para criar sentido. Com isso, o universo cresce, com personagens, cenários e histórias cheias de significado, mas também se limita: afinal, nunca mostra o mundo real exatamente como ele é, e sim por meio de recortes.
Na hora de criar uma história, elementos do nosso mundo (ou até de outras histórias) são transformados: às vezes mudam, somem, são exagerados ou combinados de outras formas. Tudo isso ajuda a montar o universo e torna a narrativa compreensível para o público.
No caso da série “Turma da Mônica: Origens”, vemos várias referências ao cotidiano brasileiro e também ao universo dos quadrinhos já conhecido, mas com um tom mais “realista”, mesmo sem perder a fantasia. Podemos notar tal ponto em uma das provas do Tio da Recreação, no episódio seis, em que temos um cenário mais lúdico e encantado — só que feito de papelão. Tudo bem ser criativo, só não pode ser irreal naquele mundo.

Além disso, a história se passa no bairro do Limoeiro, que não existe de verdade, mas que lembra qualquer bairro comum do Brasil. Essa criação do mundo da série é um acordo entre quem faz e quem assiste. O público já conhece os personagens e aceita certas regras da ficção: como a superforça da Mônica, o medo de água do Cascão ou a fome da Magali. Esses elementos fazem parte do “combinado” do universo. Dessa forma, podemos dizer que o público também participa da construção, aceitando ou questionando até onde a ficção pode se aproximar da realidade. Pensar nesse universo é também refletir sobre como ele se conecta com o mundo real e como ele é percebido por quem assiste.
Personagens e enquadramentos
No episódio um da série, logo na primeira cena de Mônica, ela encontra seus amigos e pergunta: quem são vocês? Ela podia não estar se lembrando, mas para o público é fácil identificar cada um que estava presente: Cebolinha, Cascão, Magali e Milena.

Enquanto a turma mais velha é identificada principalmente pelas roupas e cores, a turma mais nova usa também de outros elementos. Nas primeiras cenas de cada um já se percebe quem são as crianças sem precisar citar nomes. A Mônica está com um vestido vermelho e com Sansão em suas mãos. O Cebolinha com seu cabelo espetado, usando blusa verde e trocando o “R” pelo “L” em suas falas. O Cascão com blusa amarela e um suspensório vermelho, já logo mostra seu medo de água. Magali com vestido amarelo e sua grande fome. Por último, Milena com um laço no cabelo e seu jeito determinado e observador.
Cada uma das crianças tem suas características específicas sendo desenvolvidas ao longo da gincana. O Cebolinha possui um caderno que usa para escrever seus planos para
conseguir vencer a gincana do tio, seu esforço para vencer e ficar na suíte presidencial se assemelha com seu sonho de ser o dono da rua, visto nos gibis.
A força de Mônica também é usada em vários momentos, deixando os amigos impressionados, mas também assustados. Na primeira prova da competição, a turma foi dividida em grupos para disputar o cabo de guerra e Cebolinha ficou indignado, porque sabia que a dona do Sansão teria vantagem.
Magali e sua fome rendem cenas divertidas, como a vez que ela quis ser treinadora no futebol de sabão para ficar perto da mesa de comida, quando acabou comendo tudo e deixou os outros sem nada, ou quando comeu toda a comida do frigobar e deixou uma conta cara para seus pais. Apesar disso, ela também se mostra uma menina doce e que sempre tenta fazer amizade com a Mônica. Assim como o enredo de Cascão, que também gera partes engraçadas, ele nunca toma banho e tenta esconder isso das outras crianças, passando gel no cabelo e usando perfume para disfarçar o cheiro.
Milena, que ganhou mais protagonismo dessa vez, também tem um arco interessante e muito carismático, mostrando sua inteligência para tentar conhecer melhor cada um de seus amigos. Ela se mostrou arteira nas tentativas de convencer os pais a se mudarem do bairro e para tentar vencer a competição.

Enquadramentos da série — Fonte: Reprodução Globoplay.
A direção de Isabel Valiante optou por enquadramentos onde os planos são mais próximos desses personagens. É uma aposta em planos que valorizam a interação entre os atores, tanto nas cenas da infância quanto nas da velhice. Nos flashbacks, há uma preferência por ângulos baixos, na altura das crianças, com foco nelas. Muitas vezes, o corpo dos adultos é cortado ou deixado fora de cena, reforçando a perspectiva infantil. Já nas cenas do presente, com os personagens idosos, a câmera raramente desperdiça a chance de focar nos rostos, buscando criar uma sensação de intimidade. Essa escolha faz sentido dentro da proposta da série: se no passado o objetivo era entender como as relações foram construídas, no presente já se trata de mergulhar na profundidade dessas conexões.
Ambiente, iluminação e atmosfera
O cenário se passa predominantemente dentro do hotel, mas também externamente, no bairro Limoeiro. Quando as cenas são no bairro, os ambientes são ao ar livre e arborizados, remetendo novamente ao que se conhece das HQs. Em cenas internas, os locais possuem uma máscara infantil, que é reforçada com o uso de luzes vibrantes que contribuem para gerar uma atmosfera mágica.

A mobília, isto é, os elementos que compõem a cena, são usados como ferramentas para diferenciar os ambientes da Turma criança e adulta. No episódio cinco, por exemplo, é a vez de Cascão ajudar a Mônica a recuperar as suas memórias. Para isso, ele utiliza do futebol como exercício, enquanto relembra suas histórias. Estas, por sua vez, que também iniciam com o esporte: Cascão, criança, chamando o restante da turma para jogar bola com o Cebolinha e ele. O elemento bola utilizado em cada cena destoa entre si e demarcam relações temporais da obra. Quando adultos, o objeto é padrão, preto e branco, comum do imaginário relacionado ao esporte. Enquanto jovens, passa a ter uma visualidade mais lúdica, totalmente na cor azul claro. Inclusive, o foco nesse objeto — e suas diferenças — é usado como transição do presente para o flashback.

Essa dinâmica se estende a outros elementos e suas combinações. A infância dos personagens é carregada de luzes que remetem ao alegórico. A atmosfera criada em torno das crianças se dá muito pela liberdade mais artística da iluminação — algumas vezes concentrada e com tons mais fortes. Por outro lado, enquanto idosos, as cenas preferem manter a naturalidade na luz.

“Turma da Mônica: Origens” constrói um universo afetivo que marca diferentes gerações, sem bagunça: as cenas são desenhadas para que possamos identificar em qual época cada informação se passa, graças ao uso de diferentes recursos. A série equilibra a nostalgia das histórias clássicas com uma nova abordagem narrativa, apresentando os personagens em fases nunca antes exploradas, sem perder a essência que os tornou tão reconhecíveis. O cuidado com a ambientação, os enquadramentos, os elementos simbólicos e a construção visual reforçam a produção com a coerência do universo original, mas acrescentando sua própria personalidade a partir dos insumos disponibilizados.
Ao revisitar o passado com ludicidade e retratar o presente de forma sensível, a obra é um ótimo exemplo de plano infalível pala uma boa histólia: um univelso nalativo bem constluído.
*Estudantes da disciplina Estudos em Comunicação: Ficção-seriada brasileira na era do streaming (Departamento de Comunicação Social da UFMG, 2025/1).
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