“Os Quatro da Candelária”: a dramatização como parte do true crime 

Por Isabela Da Matta*

O gênero true crime tem se popularizado entre filmes, livros, podcasts, documentários e outros formatos midiáticos. Nestas produções, o público encontra detalhes sobre crimes que foram popularizados e/ou que tenham aspectos misteriosos ou perturbadores, cativando a atenção daqueles que consomem tal conteúdo.

Segundo uma pesquisa feita pelo portal Parrot Analytics, dentre as séries documentais, o maior subgênero da categoria é o True Crime, e é também o que cresce com maior rapidez. Nos serviços de streaming, as produções com este tema também revelam certa prevalência. Segundo a Folha de São Paulo, o filme Isabella: o caso Nardoni (2023), produzida pela Netflix, alcançou o primeiro lugar na plataforma ainda na semana de estréia. Já Pacto Brutal (2022), obra documental que mostra o caso de Daniella Perez, tornou-se a série produzida pelo serviço Max (antiga HBO Max) mais assistida no mundo. 

Autores como Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e Agatha Christie foram importantes para a consolidação de histórias investigativas, pela criação de personagens complexos como Auguste Dupin, Sherlock Holmes e Hercules Poirot, que, como detetives, buscam resolver crimes atravessados por enigmas e mistérios. Hoje, essas narrativas ainda atraem os olhares de muitos curiosos, que encontram nas produções mais recentes histórias diversificadas e com diferentes abordagens. 

Parte do público consumidor deste conteúdo parece se sensibilizar e se interessar pelas histórias contadas do ponto de vista dos criminosos, de modo a ignorar as nuances da dimensão dicotômica que divide estes relatos entre “bem” e “mal”. Séries como Prison Break (2005-2017) e La Casa de Papel (2017-2021) mostram histórias contadas pela perspectiva dos infratores, fazendo destes os protagonistas das obras, de modo a convidar os espectadores a torcerem por estes personagens todas as vezes que fogem da polícia e enganam os investigadores. 

Ainda que não exista um marco exato que determine o momento em que os crimes deixaram de ser vistos como tenebrosos e tornaram-se fascinantes, esta virada de interesse é visível. A vontade do público não é mais apenas entender como a polícia segue rastros e desvenda crimes, mas também passa a querer compreender quais os artifícios utilizados pelos criminosos para impedir que sejam descobertos. Dessa forma, parte do interesse por figuras investigativas como as de Dupin, Holmes e Poirot transforma-se em admiração pelos transgressores. 

A dramatização do real

O desejo pelo consumo deste conteúdo pode ser facilmente problematizado, mas a complexidade do assunto eleva-se quando o interesse dos espectadores não se restringe à dimensão do ficcional, uma vez que produções que contam histórias de casos verdadeiros e de assassinos reais têm ganhado a atenção do público. É possível que muitos dos que buscam por estas produções o façam em razão de um fascínio pelo gore e pelo horror, e não pela tensão dos mistérios das investigações, e o interesse por veiculações violentas mostra-se visível quando percebe-se o aumento no consumo de conteúdos dedicados a esta temática. 

A complexidade destas produções não está restrita apenas ao fascínio por histórias criminais, mas também passa pela trivialização da violência retratada. Muitas produções que se dedicam a divulgar casos reais usam do artifício da dramatização como forma de compor a narrativa pretendida. Nestes casos, atores e atrizes interpretam pessoas reais, mas controlados por um roteiro e por escolhas midiáticas dos produtores destes conteúdos. Desta maneira, em alguns casos, os crimes deixam de ser delitos e são transformados em histórias produzidas com o objetivo de captar a atenção do público. 

Em 2022, a Netflix lançou a série Dahmer – Um Canibal Americano, uma produção de Ryan Murphy e Ian Brennan, que conta a história de Jeffrey Dahmer, um criminoso estadunidense condenado pela morte de 17 homens e por práticas relacionadas a necrofilia e canibalismo. A produção tornou-se uma das mais vistas do serviço de streaming, somando mais de 1.8 milhões de horas de consumo em todo o mundo. Mesmo que seja uma dramatização de um evento, a produção e divulgação da série foram responsáveis por consequências reais. 

Uma pesquisa realizada com o uso da ferramenta Google Trends revelou que houve um aumento significativo na procura pelo nome de Dahmer no serviço de busca entre os meses de julho de 2022 e janeiro de 2023, provavelmente em razão do lançamento da série da Netflix (disponibilizada para o público em setembro de 2022). Contudo, a curiosidade do público não se limitou à dramatização, e se estendeu a outras nuances do caso real. Nesse contexto, uma pesquisa com a mesma ferramenta mostrou também um aumento nas buscas pelos termos “Jeffrey Dahmer polaroids”, em referência às fotografias que o criminoso tirava de suas vítimas. Esta informação sobre o interesse do público serve como maneira de contribuir para a conjectura de que a violência tem sido usada como forma de entretenimento e pode revelar, também, um novo olhar dos espectadores para os criminosos, de forma a entendê-los como indivíduos célebres e passivos de admiração. 

Além da situação mencionada, o uso de dramatizações em peças que retratam crimes reais pode também divulgar uma história alterada e distante da realidade, de maneira a influenciar os espectadores, ainda que muitas das produções tenham avisos sobre as escolhas fílmicas tomadas (explicitando ao público que a história contada é apenas baseada em fatos e não se dispõe a reproduzir na íntegra a realidade dos acontecimentos). 

É importante pontuar que o objetivo desta reflexão não é sugerir que a mídia não divulgue casos de violências, mas sim, criticar estas produções que usam da dor, do luto e da violência extrema como artifícios para captar visualizações em veiculações que se dispõem a tratar sobre casos reais mas nem sempre condizem com a verdade. 

Os Quatro da Candelária

Pôster de divulgação de Os Quatro da Candelária. Fonte: Divulgação Netflix.

Um exemplo de uma produção recente que ilustra a complexidade desta relação entre dramatização e realidade é a produção da Netflix Os Quatro da Candelária, lançada em novembro de 2024. A proposta da minissérie é contar, em quatro capítulos, a história de quatro jovens que tiveram suas vidas afetadas pela tragédia. Contudo, os quatro personagens principais foram criados pelos roteiristas da série e não representam pessoas reais, mas sim, o imaginário daqueles que foram espectadores do crime. Assim, a produção mistura verdade e ficção em um mesmo contexto. 

Diferentemente das outras produções aqui mencionadas, “Os Quatro da Candelária”, produção criada por Luis Lomenha, não é construída de maneira a evocar nos espectadores quaisquer tipos de sensação que lhes façam venerar os transgressores, mas, ainda sim, usa do interesse do público em histórias sobre crimes para comercializar a violência. 

A minissérie da Netflix mostra as 36 horas que precederam a chacina pela perspectiva de quatro personagens: Douglas, Sete, Pipoca e Jesus. Cada episódio mostra um pouco das vidas dos garotos, revelando aos espectadores informações novas sobre os personagens e sobre os momentos em que estiveram todos juntos, tais como o roubo à fábrica de chocolate Fantastic e a expulsão dos garotos da Igreja da Candelária em vista de um casamento nobre que aconteceria no local. 

Os protagonistas da série: Douglas, Sete, Pipoca e Jesus, respectivamente. Fonte: Reprodução Netflix.

O primeiro episódio conta a história de Douglas (Samuel Martins), em uma trama que gira em torno de dar um enterro digno a seu pai adotivo. Quando pequeno, teve os pais assassinados e passou a viver na rua, até que foi encontrado por Paulo (Leandro Firmino) e tratado como seu filho. Assim, para cumprir seu objetivo, Douglas se envolve em assaltos, consultas a “jogos do bicho” e sequestros. Ao fim do capítulo, vê-se os dizeres “em memória de Tiago Marques”, como uma homenagem ao diretor de arte da série. 

O personagem Sete (Patrick Congo), o mais velho dos garotos, tem sua história contada no segundo episódio. Suas ambições estão voltadas a sair do Rio de Janeiro e chegar à Florianópolis, para juntar-se à Marinha. Por ter orientações sexuais que não correspondem à heteronormatividade, apanha de seu padrasto, até que, um dia, foge de casa. Subentende-se que pratica atividades sexuais em troca de dinheiro e possui um relacionamento secreto com Jorge (Bruno Gagliasso), um homem casado. Sua relação com Pipoca assemelha-se a um vínculo fraterno, como se fossem irmãos. 

Pipoca (Wendy Queiroz) tem sua história contada no terceiro episódio. Ela vem de São Paulo e é deixada em um orfanato pela mãe, por não conseguir sustentar a filha. Em virtude de um incêndio no prédio, Pipoca e outros moradores do orfanato acabam na rua. Por isso, a maior ambição de Pipoca é reencontrar a mãe. Neste episódio, é revelado o motivo da proximidade entre ela e Sete: ambos viviam no mesmo lugar. 

O episódio final narra a história de Jesus (Andrei Marques), que foi encontrado em uma lixeira quando bebê. Cresceu no mesmo orfanato onde estavam Sete e Pipoca e, em poucos minutos de episódio, descobre-se que Douglas também morava no local. Os quatro se conheceram fugindo do incêndio. Jesus tem os passos calculados, valoriza suas amizades e é quem toca os sinos da Candelária no momento em que a chacina acontece, como estratégia para afugentar os criminosos. 

Ao fim do último episódio, as imagens dos assassinatos são finalmente mostradas, revelando ao público que Douglas e Sete foram mortos na chacina. Logo antes dos créditos, os espectadores podem ler as frases: “das 72 crianças e adolescentes que dormiam diante das portas fechadas da Igreja da Candelária, oito foram assassinadas naquela trágica madrugada de 23 de julho de 1993. A maior parte dos sobreviventes perdeu a vida nos anos seguintes por violência e doenças adquiridas nas ruas. Todos os policiais condenados pela chacina, com penas de 20 a 300 anos, foram soltos. Em memória das inúmeras crianças e adolescentes em situação de rua, cujos sonhos foram e são brutalmente interrompidos pela violência”. 

A chacina da candelária foi um acontecimento amplamente divulgado pela mídia e já se tornou conhecido por grande parte dos brasileiros. Neste sentido, ainda que a série não seja documental ou que retrate fielmente a realidade, é possível apontar, pelo próprio título e pela sinopse da obra, que se trata de uma produção sobre violência e que se dispõe a tratar sobre

um crime real. Neste sentido, este ensaio considera Os Quatro da Candelária dentro do conceito de true crime. 

A obra em questão distancia-se de outras produções do gênero na medida em que usa da ficção para encenar um momento marcante da história brasileira. Desta maneira, além de true crime, Os Quatro da Candelária é também compreendida como um drama seriado, modelo que comporta universos narrativos em torno dos quais se desenvolvem histórias de caráter unitário mas englobando os mesmos personagens e situações já apresentadas. 

Logo no início do primeiro capítulo da série, lê-se as frases “O Rio de Janeiro recebeu 3 milhões de africanos escravizados, durante os 4 séculos de colonização europeia no Brasil. Com muito sangue e suor, o povo preto construiu a igreja da Candelária às margens do porto onde desembarcaram. Essa história é inspirada nos relatos e sonhos de descendentes desses escravizados sobreviventes do massacre conhecido como Chacina da Candelária”. Esta escolha midiática, ao mesmo tempo, aproxima a produção da realidade (ao citar contextos históricos e atuais) e se afasta do real, quando diz que foi inspirada pelos fatos. 

Observando a maneira como este aviso foi posto, é possível inferir que a produção da série compreende que este aviso é suficiente para que a obra não carregue nenhuma responsabilidade de retratar a realidade da maneira como aconteceu verdadeiramente. Contudo, a minissérie mostra histórias completamente fictícias inseridas em um acontecimento real. Neste sentido, uma vez que não são reveladas aos espectadores quais partes da trama contada retratam a realidade e quais delas foram construídas pelos produtores, não há como distinguir a verdade da ficção. Uma vez desvinculada desta obrigação, a série passa a ter liberdade de representar a situação da maneira que achar mais pertinente. 

Neste contexto, recursos do drama são acionados para contar uma história real. Os testemunhos coletados foram personificados, ganhando corpos que sentem emoções, que se vestem, que se expressam e que agem (personagens estes criados a partir de decisões de ordem cinematográfica) para contar a história das vítimas da Chacina. A encenação do crime em si também se distancia das abordagens percebidas em outras produções de true crime, uma vez que retrata a violência em cenas curtas e com foco nos personagens (e não nos policiais, nos tiros ou no sangue, por exemplo). Assim, simboliza fatos em um contexto fictício.

A partir dessa discussão, são compreendidos ao menos dois possíveis caminhos traçados pelos espectadores. Uma destas possibilidades abrange aqueles que expressaram interesse na história e decidiram procurar por maiores informações sobre o acontecimento, entendendo a verdade por trás da série e quais os limites da ficção. A outra, relaciona-se àqueles que consumiram o conteúdo sem a intenção de aprofundar seus conhecimentos acerca do caso, tomando como verdade muitas daquelas interpretações, já que, como mencionado anteriormente, não há sinalização de quais elementos são verdadeiros e quais são fictícios, mesmo com a mensagem veiculada ao início do primeiro episódio. 

Como forma de prevenir a propagação de informações falsas, seria interessante que, ao final da série, fosse reforçado aos espectadores que a série se trata de uma obra que une a imaginação dos produtores e os testemunhos reais de vítimas de um crime amplamente divulgado na televisão brasileira. Desta maneira, a produção age como forma de expor uma situação real sem risco de promover a desinformação. 

*Mestranda em Comunicação Social pelo PPGCOM-UFMG e aluna da disciplina “O drama na ficção seriada contemporânea da América Latina” (Departamento de Comunicação Social da UFMG, 2024/2).


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