Por Gabriela Arcas*

Se nos contos de fadas é típico que as princesas acordem de um sono profundo ao serem beijadas por seus príncipes, aqui um beijo pode ser fatal! Essa subversão da representação do beijo pode ser explicada pelo novo fazer televisivo que vem sendo adotado em dramas feitos para streaming. Nele, há uma ruptura com o chamado drama regular e a adoção de algumas estratégias narrativas que vão imprimir complexidade à obra.
Você (que assistiu Boca a Boca) consegue apontar alguma estratégia geradora de complexidade na produção? Vamos analisar isso a seguir.
A série Boca a Boca
Lançada em julho de 2020, Boca a Boca é uma obra original brasileira da Netflix. Classificada como drama, a série conta, ao longo de seis episódios, a
história de Alex (Caio Horowicz), Chico (Michel Joelsas) e Fran (Iza Moreira), adolescentes residentes de uma pequena cidade pecuarista chamada Progresso. A narrativa se desenrola após os jovens da cidade se contaminarem com um vírus mortal, contraído pelo beijo. A partir disso, os protagonistas vão ter que lidar com uma avalanche de emoções, mudanças e ainda com a descoberta do que está por trás da contaminação.
Esmir Filho é o showrunner da série, e assina a direção, ao lado de Juliana Rojas. Esmir e Rojas escrevem os roteiros ao lado de Marcelo Marchi, Jaqueline Souza e Thais Guisasola. Ainda, a equipe contou com parceria da produtora Gullane e contribuição da Fetiche Features.
De acordo com Esmir Filho, apesar de Boca a Boca não ter sido oficialmente cancelada pela Netflix, é provável que não haja uma continuação. Assim, embora o último episódio tenha acabado sem a resolução de boa parte dos conflitos propostos, e a cena pós-créditos tenha prometido uma sequência intrigante, infelizmente, não devemos esperar uma segunda temporada da produção.
Mesmo assim, apesar do final abruptamente interrompido, Boca a Boca chama atenção por sua construção narrativa e estética diferenciada. Em 2021, Rocha et al. chegou a observar na série uma expansão das normas de storytelling da ficção seriada televisiva, por meio da antecipação do incidente incitante e da mudança da sua principal linha de ação; provando que ela realmente expressa novos modos de fazer do drama seriado.
É a partir dessas ideias que chegamos ao objetivo principal deste ensaio: considerando as expansões narrativas já observadas na obra e a crescente presença dos dramas contemporâneos no catálogo de séries originais brasileiras feitas para streaming, de que maneira Boca a Boca desenha sua complexidade?
O drama seriado contemporâneo
Muitas são as maneiras de entender a complexidade em uma narrativa seriada televisiva. De maneira geral, tudo começou nos ano de 1990, na TV a cabo premium dos Estados Unidos, quando séries como Oz (HBO, 1997) e The Sopranos (HBO, 1999) apresentaram uma nova forma de se fazer televisão.
Esse novo modelo trouxe consigo várias estratégias narrativas e estilísticas que imprimiram complexidade nos dramas televisivos estadunidenses. Trisha
Dunleavy nomeou o fenômeno como “drama seriado contemporâneo”, e classificou-o como um metagênero, ou seja, um gênero principal que abrange vários subgêneros, como médico, ficção científica, melodrama familiar, crime, suspense, terror etc. Nessa linha, a autora identificou cinco estratégias que trazem mais complexidade para obras desse tipo, sendo elas: inovação conceitual; estética realista; serialização da obra; hibridismo de gêneros e trajetória dos personagens.
Levando em conta a construção de sua narrativa e estilo, percebemos que Boca a Boca manifesta todas as características acima – algumas de maneira bem desenvolvida, outras de modo mais superficial. Assim, para entendermos como a série desenha sua complexidade, escolhemos analisá-la da perspectiva do hibridismo de gêneros, estratégia trabalhada de maneira mais intensa na obra.
Hibridismo de gêneros
Como o nome já expressa, o hibridismo de gêneros pode ser entendido como a mistura de elementos de diferentes gêneros para resultar em uma nova forma de se comunicar. Na televisão, a estratégia já existe há décadas: Dunleavy exemplifica com o seriado A Gata e o Rato (ABC, 1985), que combina comédia romântica com drama policial, e podemos pensar na telenovela Vale Tudo, que misturou melodrama com suspense e narrativa de detetive ao lançar o “quem matou Odete Roitman”.
Já Boca a Boca é considerada como uma série de drama. Mais especificamente, na aba em que ficam os detalhes da produção, a Netflix a enquadra como pertencente aos gêneros “Séries dramáticas”, “Brasileiros” e “Séries teen”. Ainda, observamos que a obra também apresenta traços de suspense, ficção científica, melodrama familiar e, até mesmo, um certo horror, colocando-se como uma narrativa bastante híbrida.
Entendemos como drama a narrativa ficcional que apresenta-se, principalmente, por meio de diálogos. A sua principal intenção é apresentar uma história “séria”, que pode sensibilizar ou levar o espectador a uma reflexão crítica. Boca a Boca é construída sobre uma base dramática, mas sua narrativa torna-se mais interessante e perspicaz quando toma de empréstimo outros gêneros para apresentar algumas ideias de maneira mais certeira. Veja como:
- Teen
Uma das principais marcas “teen” de Boca a Boca é o seu elenco principal ser composto por adolescentes, trazendo para a narrativa o chamado “coming of age” – gênero que retrata a transição do personagem pelas fases da vida. Assim, vemos, por exemplo, Alex dar o seu primeiro beijo, Chico se apaixonar por Maurílio (Thomás Aquino), Fran sonhar em fazer faculdade, Guilherme (Augusto Trainotti) lidar com sua orientação sexual, entre outras situações.
Observamos também o uso intenso de ferramentas digitais. As redes sociais são frequentemente utilizadas como meio de comunicação pelos jovens, com destaque para os diálogos e os stories sendo exibidos como se o próprio público estivesse conectado.




Além disso, a série fornece algumas informações sobre a narrativa por meio de ferramentas digitais, como ocorre no “mapa do beijo” (programa que busca identificar quem havia beijado quem, para mapear as pessoas contaminadas). Outro ponto que pode ser destacado é a usuária “D’mask” (Esther Tinman), uma pessoa mascarada que realiza performances abstratas em lives.


Ainda, a obra retrata duas festas hiper coloridas (uma por meio de flashback e outra no tempo presente da narrativa). Em ambas, os adolescentes se vestem e se maquiam de maneira consonante com a moda jovem atual; eles ingerem uma substância com efeito similar ao do ecstasy e fazem diversos pares e trios para se beijarem – todos os elementos remetendo a um estilo teen.
(T1E1) – Flashback da festa (T1E4) – Segunda festa
Um ponto interessante é que, por meio de um recurso estilístico, foi possível retratar a mente de Chico após o uso de tal substância: a série leva o público para dentro da realidade psíquica do personagem.

- Ficção científica
Um dos principais eixos temáticos da narrativa trata sobre experimentos genéticos, e se desenha por meio de elementos da ficção científica. Na cidade de Progresso, cuja principal fonte de renda é a pecuária, encontra-se a grande fazenda de Doni Nero (Bruno Garcia), pai de Alex. O vilão ambiciona criar uma nova linhagem de gado, a partir da sequência de DNA de um boi já extinto.
Assim, com a ajuda de Maurílio, seu braço direito, ele realiza experimentos genéticos ilegais, colocando toda a população em risco – haja vista que foi essa linhagem de bovinos que originou o vírus mortal da série. Inclusive, Ventura, o boi de estimação de Alex, é um exemplar de tais experimentos: o animal possui uma espécie de pata localizada nas costas, mostrando aos telespectadores os desdobramentos éticos de tais práticas.

- Melodrama familiar
Boca a Boca também traz à tona elementos do melodrama familiar, por meio, principalmente, dos arcos narrativos de Fran e de Chico. A primeira personagem vive na fazenda de Nero, em um local chamado “Colônia”. Sua mãe, Dalva (Grace Passô), trabalha para o fazendeiro, porém, começa a enfrentar dores muito fortes no corpo (a narrativa dá a entender que ela tem fibromialgia ou algo do tipo). Fran tenta trabalhar no lugar da mãe, mas sua iniciativa não resolve o problema. Assim, com a produtividade reduzida, Dalva é demitida e recebe o prazo de uma semana para desocupar a casa em que mora.
Outro arco de Fran diz respeito à morte de sua irmã gêmea alguns anos antes. A protagonista sofre intensamente pela perda. Sua mãe, ao visitá-la no hospital, conta sobre o dia do nascimento das filhas e pede a Fran, que não mais é capaz de escutá-la, para que não a deixe.

Chico também protagoniza arcos de melodrama familiar quando dialoga com seu pai, Tomás (Flávio Tolezani). Fervorosamente religioso, o homem fica constantemente decepcionado com o comportamento do filho, quando, por exemplo, ele não cumpre suas tarefas, usa entorpecentes ou se relaciona com homens.

- Horror/suspense
Por fim, Boca a Boca lança mão de elementos do horror para dar um tom sombrio à narrativa da contaminação. Bel (Luana Nastas), Fran e outros personagens manifestam sintomas bizarros do vírus – como os olhos brancos, linhas
pela pele e apatia extrema. Além disso, eles são colocados em um grande quarto escuro e impessoal, e amarrados à cama, remetendo aos filmes de horror que retratam instituições psiquiátricas.

Ainda, a série mostra o boi criado clandestinamente na fazenda de Nero; a criatura é enorme e bufante, e aterroriza os cidadãos que caminham pelas matas de Progresso. Um recurso utilizado pela obra foi não exibir o boi com clareza, para que o público construa a figura do monstro em sua mente. No penúltimo episódio, finalmente, podemos enxergar o animal em detalhes. Na mesma cena, Alex alucina que seu braço está desfigurado.

Print (T1E5) – Alex alucina
A complexidade de Boca a Boca
Boca a Boca trata de um assunto pouco (ou nunca?) explorado na ficção televisiva brasileira: a transmissão de um vírus mortal pelo beijo. E, para explorar o universo narrativo criado, nada mais conveniente do que pegar vários adolescentes [com hormônios nas alturas] para performar esse conflito. O resultado foi a disseminação veloz do vírus e o adoecimento de boa parte dos jovens.
Em contrapartida, ao mesmo tempo em que os adolescentes anseiam por viver todas as emoções dessa fase, os adultos representam o controle, a repressão e, na figura da diretora Guiomar Araújo (Denise Fraga), o abuso de poder.
Em uma realidade intrincada e tensa, o telespectador vai descobrindo tudo junto com os personagens, por meio de tramas e subtramas que, aos poucos, vão revelando os segredos de cada um. E é aí que mora a parte mais interessante da obra: perceber como essas tramas e subtramas conseguiram explorar diferentes temas, como epidemia, modificação genética, ética no agronegócio, conservadorismo, fake news, negacionismo, redes sociais e romance.
Entendemos que isso se deve ao hibridismo de gêneros, ou seja, ao uso de recursos narrativos e estilísticos que remetem ao drama, à narrativa teen, à ficção científica, ao melodrama familiar, ao horror e ao suspense. Por meio da serialização, isto é, da mescla do arco de temporada com arcos episódicos, foi possível combinar narrativas oriundas de gêneros distintos – e muitas vezes opostos – e criar uma história coerente, bem amarrada e, claro, mais complexa.
*Mestranda pelo PPGCOM/UFMG e integrante do COMCULT.
Deixe um comentário