Inovações narrativas em Maldivas (2022): uma ruptura com o modelo clássico de Hollywood

Por Victória Nigro

Voltemos para 2022, quando é lançada a 18ª série brasileira da Netflix: Maldivas. Naquele momento, o cenário de produção local já apontava para mudanças e inovações relevantes quanto ao modo de construção das séries, a partir da expansão e/ou alteração das normas clássicas, seja na estrutura, no hibridismo de gêneros e na construção de personagens e de mundos narrativos.

Da esquerda para direita: Manu Gavassi (Milene), Natália Klein (Verônica), Enzo Romani (Denilson), Bruna Marquezine (Liz), Guilherme Winter (Gustavo), Carol Castro (Kat), Samuel Melo (Cauã), Sheron Menezzes (Rayssa), Klebber Toledo (Victor Hugo). Fonte: Netflix.

Maldivas não fugiu dessa tendência, e a partir do roteiro escrito por Natália Klein, podemos apontar algumas das inovações narrativas identificáveis na obra. A série que se passa no homônimo condomínio de luxo, e conta a seguinte história:

Liz se muda para o Rio de Janeiro com o objetivo de reencontrar sua mãe, Leia Lobato. Porém, ao chegar, descobre que ela teria sido vítima de um incêndio em seu apartamento. Decidida a descobrir a verdade sobre a morte da mãe, que vivia sob a identidade falsa de Patrícia Duque após ser acusada de assassinar o pai de Liz, a jovem inicia uma investigação. Ao se infiltrar no círculo de amizades do condomínio Maldivas, Liz revela traições e crimes que conectam Patrícia às moradoras: Milene, envolvida em um esquema de rachadinha; Kat, ligada à lavagem de dinheiro do marido; e Rayssa, que esconde uma vida dupla para proteger sua carreira. A investigação ganha novas dimensões quando reviravoltas revelam que Patrícia está viva e fugindo de Joana, avó de Liz. Confrontada por segredos perturbadores sobre sua infância, Liz é levada a tomar decisões extremas para proteger a mãe e corrigir as injustiças do passado.

O que nos interessa aqui é a forma como Natália Klein escolhe contar essa história, e porque essa forma pode ser considerada inovadora, ou, pelo menos, de modo que se afasta do modelo clássico de narrativa, como definido por David Bordwell e Robert McKee. Além de ser o tema deste ensaio, esse foi o questionamento levantado no meu trabalho de conclusão de curso, feito sob a orientação da coordenadora do COMCULT, Profª. Dra. Simone Maria Rocha e, do também pesquisador do grupo, Dr. Marcos Meigre.

A investigação mostrou que esse modelo clássico, ou “Arquitrama”, define vários traços comuns entre as obras narrativas de ficção audiovisual, especialmente das produções hollywoodianas. Para nós, os traços mais interessantes de se observar são:


  1. O estabelecimento de um único protagonista ativo e dinâmico.
  2. Personagens como indivíduos psicologicamente bem definidos, com um conjunto consistente de traços, crenças e comportamentos.
  3. A existência de duas linhas de desenvolvimento: uma que envolve um romance heterossexual e outra que envolve um conflito externo a essa relação.

Com isso em mente, ao pensarmos em desvios desse modelo em Maldivas, a primeira característica da série que chama atenção é o estabelecimento de múltiplas protagonistas. Desde sua divulgação, Maldivas dava indícios que o núcleo central de atrizes estava em pé de igualdade quanto a sua participação na obra. E a narrativa entregue durantes os oito episódios confirma Liz, Milene, Kat e Rayssa como estrelas simultâneas.

Construção das personagens

Cada uma dessas personagens é apresentada e trabalhada profundamente. Mas, neste ensaio, nos concentraremos apenas nas personagens de Manu Gavassi e Bruna Marquezine. Milene é apresentada da seguinte forma pela narradora da série, Verônica:

Fonte: Reprodução Netflix.

“Começando por Milene. Milene é um clássico da Barra da Tijuca. Caipivodca importada de lichia, sem açúcar. Milene tinha o corpo perfeito, o cabelo perfeito, o marido perfeito. Mas nem sempre as coisas foram assim. Quatro anos e muitos procedimentos atrás, essa era Milene. Milene se tornou a musa inspiradora de Victor Hugo. Sua obsessão, sua obra-prima, sua Vênus, antes dos braços dela caírem. E com os peitos muito maiores, obviamente. Mas, uma vez que a obra de arte fica pronta, o artista não tem mais o que fazer com ela. Tudo que lhe resta é ser admirada pelos outros. Ao se sentir rejeitada por Victor Hugo, Milene desenvolveu uma compulsão cada vez mais difícil de controlar. E cada vez mais difícil de esconder.” (T1E01, 2 minutos).

Num cenário mais tradicional, Milene talvez fosse restringida a se caracterizar como a personagem mimada, ou a garota popular e malvada. Entretanto, estamos lidando com um cenário que demanda mais profundidade das personagens, e Milene entrega essas camadas, tanto a partir de sua história “de origem” como na situação que vive durante o enredo. Antes de se casar com Victor Hugo, Milene era uma moça comum, nem rica, nem bela, e quando o cirurgião a toma como um projeto pessoal e muda sua vida, ela se torna completamente submissa ao marido. Ele se torna a razão da vida de Milene. Portanto, não é surpresa que quando o encanto do cirurgião pela sua esposa, e até então musa, se extingue, Milene – emocionalmente dependente de Victor Hugo – passa a tomar medidas drásticas para ter a aprovação de seu marido, especialmente da aprovação da sua imagem, que foi cuidadosamente construída por ele.

A soma da sua infelicidade com as incansáveis tentativas de retomar a fascinação do marido pela sua imagem culminou numa compulsão por compras tão grave que as dívidas de Milene não podiam continuar sendo ignoradas. Sem coragem de colocar em risco seu relacionamento, Milene resolve esconder os extratos bancários de Victor Hugo, para não o decepcionar, e quitar seus débitos sozinha. Porém, uma dívida exorbitante como a dela, não poderia ser simplesmente negociada com o banco, e é nesse contexto que descobrimos que a síndica do Maldivas tinha um acordo de “rachadinha” com a equipe de segurança ‘Elite Corp’: ao implementar o seu projeto de segurança, Milene receberia uma fração do lucro do negócio. O sucesso dessa negociação era essencial para a manutenção do status de Milene: rica, poderosa, bonita, bem vestida, bem casada, etc.

A complexidade psicológica de Milene vai aumentando com a progressão da obra, na qual os conflitos em que é submetida testam até onde ela é capaz de ir para manter seu status social. Milene é movida por seus medos e inseguranças, porém,  até que ponto isso justifica suas ações? É possível que o espectador se veja nos sofrimentos dela, mas seus métodos são questionáveis, e essa junção de fatores forma uma personagem com muitas camadas, várias delas contraditórias.

Já no caso de Liz, temos uma personagem movida pela busca de respostas, e que esconde sua elevada engenhosidade, de forma a não levantar suspeitas sobre seus atos. Ela ama a vida que tem, ela ama sua avó e seu noivo, mas Liz nunca conseguiu aceitar que sua mãe simplesmente a abandonou. A personagem se recusa a acreditar nas acusações contra sua mãe sem a consultar, até porque no caso do assassinato de seu pai, Liz seria a única testemunha, e ela afirma não lembrar o que aconteceu (o que muda no final da temporada, quando a memória de que foi a própria Liz que atirou e matou o pai ressurge).

Liz é um tipo de personagem que facilmente seria colocada no lugar de coitada, injustiçada, sofredora, porém ela se recusa a ser passiva frente a sua tragédia, e a cada restrição que lhe é imposta, observamos ela ir cada vez mais longe, empurrando os limites éticos e morais para alcançar seus objetivos. No início do primeiro episódio, é possível que se enxergue Liz como uma garota caipira, potencialmente mimada pela avó, que mesmo depois de duas décadas ainda chora pela perda da mãe. Entretanto, essa imagem rapidamente vai se esvaindo, processo que começa quando ela abandona seu noivo na beira da estrada para ir atrás da sua mãe sozinha, e continua no segundo episódio quando ela mente sobre sua identidade e intenções.

Fonte: Reprodução Netflix.

No final do episódio 2, Liz chega a invadir o apartamento de Patrícia, que estava com acesso restrito à polícia, e inicia por sua conta uma investigação do caso. Mas é apenas no final do terceiro episódio que entendemos a dimensão do envolvimento de Liz com a possibilidade de desvendar a história de sua mãe:

“Liz iria até onde fosse preciso pra descobrir exatamente o que aconteceu com a sua mãe. For por isso que alguns anos atrás, ela decidiu estudar e se tornar especialista em uma área muito específica: perícia forense. Como boa perita, Liz sabia da importância de eliminar toda e qualquer prova que pudesse incriminá-la. Toda e qualquer prova. Mas todo perito sabe a importância de manter a distância emocional dos casos. Do contrário, até mesmo o melhor dos profissionais pode cometer erros irreversíveis.” (T1E03, 24 minutos).

Liz, assim como as outras personagens com quem divide protagonismo, tem uma personalidade multifacetada, se diferenciando de personagens extremamente estereotipadas, que possuem um traço norteador bem definido, e que eram frequentemente usadas em produções do estilo Hollywoodiano. Pelo contrário, as protagonistas de Maldivas não possuem claras características norteadoras, mas sim uma junção de traços contraditórios, que culminam em personagens com uma moralidade ambígua.

A complexidade psicológica e moral das protagonistas as torna mais realistas, e afasta a obra do que é estabelecido como modelo clássico, criando um ponto de reconhecimento entre elas e o espectador. Mesmo que os conflitos que elas enfrentam sejam de uma realidade distante, a batalha interna que elas vivem, entre o certo e errado, o que elas deveriam querer e o que de fato querem, são características que trazem um charme especial para as personagens dessa série. O estabelecimento desse tipo de personagem deixa para trás o modelo clássico do protagonista herói e imaculado, as próprias protagonistas têm dentro de si suas antagonistas.

Linhas de ação narrativas

Narrativas com múltiplos protagonistas vão necessariamente criar multitramas – definida por McKee como histórias em que “os personagens buscam desejos diferentes e individuais, sofrendo e beneficiando-se independentemente” (2006, p. 136) -, e nessa configuração, temos a constituição de várias pequenas histórias, cada uma com seu protagonista. A obra dessa construção resulta em um retrato dinâmico da realidade representada na narrativa, no caso de Maldivas o múltiplo protagonismo nos faz enxergar a hipocrisia que permeia os membros daquela sociedade de alto padrão.

Utilizando conceitos tirados dos manuais de roteiro, é possível rastrear as linhas de ação das personagens como histórias completas, com os 3 atos (conflito, crise, resolução) de uma história completa. Além disso, outro argumento que corrobora com a existência de múltiplas linhas narrativas na série, é que cada uma das personagens tem uma necessidade dramática (o que o seu personagem quer vencer, ganhar, ter ou alcançar durante o roteiro) distinta.

Podemos demonstrar as narrativas das protagonistas com a tabela abaixo:

Fonte: tabela produzida pela autora.

Confirmando que as personagens principais de Maldivas vivem enredos distintos, fica claro que a série não se configura como um Arquitrama tradicional, mas como uma Multitrama, e, portanto, desvia do padrão de narrativa clássico. 

Por fim, gostaria de demonstrar que a série entrelaça suas linhas de ação, de forma que, mesmo sendo um roteiro composto de várias histórias, ele funciona como uma unidade, mantendo coesão entre as tramas que o formam. Durante a sequência que se passa entre 35m20s e 37m40s do quarto episódio, as moradoras do condomínio Maldivas estão no show da Veneno Tropical – banda formada pela outra protagonista Rayssa e seu marido Cauã – em comemoração à abertura de um spa. Porém, a noite de diversão é interrompida quando Milene, Verônica, Kat e Liz escutam sirenes de viaturas policiais se aproximando.

Maldivas, T1E4. Fonte: Reprodução Netflix.

Nesse trecho o roteiro traz todas as tramas a frente a partir de um mesmo incidente: ao perceber a aproximação da polícia, Verônica e Milene logo buscam um acordo que permitirá que ambas continuem suas atividades ilícitas sem interferência uma da outra. Já Kat e Liz correm em direção a seus apartamentos, Kat foi buscar as malas de dinheiro sujo que estavam em sua casa para as levar para o spa, onde irá lavar toda a quantia. Liz, por sua vez, junta seus pertences e tenta fugir de uma vez do condomínio, mas é encontrada pela polícia, que entrou no condomínio atrás dela somente após o investigador Denilson descobrir que Liz é filha de Leia e que Leia está viva. Isso tudo ocorre enquanto Rayssa se apresenta com Cauã, e os affairs do casal, Victor Hugo e Cauê, assistem demonstrando insatisfação.

Todas as quatro linhas de ação até então estabelecidas se encontram nesse evento que serve como clímax do episódio, e um dos principais clímax da temporada. Com a imagem mental dessas várias linhas se tocando ao longo da trama, concluímos a apresentação da estrutura narrativa de Maldivas como uma obra que de fato não se enquadra no modelo clássico de linha de ação dupla.

E o que mais?

Por fim, além das inovações apontadas em relação a construção das personagens e linhas de ação narrativas, Maldivas também demonstra que não é uma história movida por um conflito externo dominante. Embora o suposto assassinato de Patrícia esteja presente, o que serve de engrenagem para o enredo são os conflitos internos das personagens principais. Especialmente, é a necessidade das protagonistas de proteger sua vida privada para manter sua imagem pública que move a trama

Há também uma alteração no que diz respeito ao estabelecimento do incidente incitante, se convencionalmente o conflito só era apresentado ao final do primeiro ato, Natalia Klein escolhe mostrar o incêndio que supostamente assassinou Patrícia logo nos primeiros minutos da série. Ela usa o acontecimento que irá provocar o início de cada uma das linhas de ação da série como uma espécie de prólogo, introduzindo o espectador diretamente no conflito antes mesmo de construir o contexto narrativo.Alterações como essas encontradas em Maldivas, também podem ser identificadas em séries como 3% (2016-2020), Coisa Mais Linda (2019-2020), Boca a Boca (2020) e As Five (2020); demonstrando que essas inovações são indícios de um novo modelo poético, que adotado pelas produções das plataformas de streaming no país.


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